Eu soluço mais uma vez em frente ao espelho me perguntando o que há de errado comigo




18:10 e eu corro em direção ao shopping. Eu estou atrasada de novo, eu sei, mas é que eu fiquei tentando corrigir aquela olheira adquirida depois de mais uma noite mal dormida. Eu tento ficar bonita e torço para que você não perceba que eu passei mais uma noite em claro. Você não percebe, pra variar. Mas talvez dessa vez você só estivesse muito preocupado em me entregar o buque de rosas que você havia comprado. Eu te abraço e sinto o seu cheirinho de lavanda. Você era um daqueles caras que cheira como se tivesse acabado de tomar banho todo o tempo. Eu me sinto uma boba pela noite passada, afinal, ali estava você lindo como sempre, segurando pétalas perfeitas enquanto me roubava um beijo rápido. Você pega a minha mão e eu estufo o peito, esperançosa. 
Você me leva para comer e começa a contar as suas histórias. Eu gargalho até das piadas que você mesmo acha sem graça e presto atenção em cada detalhe que saí da sua boca. Você se empolga com um desfecho importante e mal percebe que eu vou deixando a minha comida de lado no prato. Você sempre me agradece pelo modo único como eu escuto você como ninguém mais o faz, e eu vou perdendo o apetite conforme percebo que o nosso encontro está chegando ao fim sem que você tenha prestado atenção nos meus detalhes. Até que enfim você me pergunta se tem algo de errado com a comida e eu murmuro que ‘‘não’’, mas eu penso que talvez houvesse algo de errado comigo. Você não insiste e passa para o próximo assunto, e eu oculto o fato de que na verdade você me faz sentir como se houvesse algo de errado em mim. Eu me arrumei toda e passei perfume até quase morrer sufocada, só pra ver se dessa vez você comentava algo, mas talvez a chuva tivesse levado o cheiro forte que deveria estar impregnado na minha pele. Cheirei a pontinha da minha camiseta e percebi, com tristeza, que o cheiro continuava ali. Ainda sim, talvez fosse só eu que já estava acostumada com aquela essência. Eu não podia culpá-lo. 
Você me leva pra casa e me tira a roupa, e eu finjo que vou pegar algo na geladeira só pra ver se você repara na lingerie nova que eu comprei pensando em você. Te observo deitado fuçando no celular e, vencida pelo cansaço de ficar ali parada, decido ir também para debaixo das cobertas. Você me toca a pele mais uma vez, como já o fez diversas outras vezes, sem se importar realmente em me tocar a alma. Você diz que foi tudo muito gostoso, e até foi! Carnal e visceral como deveria ser, mas eu ainda estou procurando a parte ‘‘sentimental’’ entre as roupas espalhadas pelo quarto. 
A chuva continua lá fora, torrencial e impiedosa enquanto eu me apresso para pegar o ônibus. Você me rouba outro beijo rápido e diz para eu te ligar quando chegasse em casa, mas eu não vou ligar! Só pra ver se dessa vez você liga. Eu me esforço para proteger o buque de rosas e chego em casa toda encharcada. Olho o celular e não tem nada seu lá. Nenhuma ligação. Nenhuma mensagem. Nenhum sinal de fumaça. Arrumo as rosas em um vaso e ela se torna a minha única companhia naquela cozinha gelada. O presente era lindo, mas se você soubesse que o que faz realmente diferença são os detalhes. Se sentir sozinha era ruim, mas se sentir solitária ‘‘acompanhada’’ era infinitamente pior. 
Você nunca me disse: ‘‘Nossa! Como você está linda!’’, e eu soluço mais uma vez em frente ao espelho me perguntando o que há de errado comigo. O batom saiu da minha boca sem ser notado, e o meu cabelo ficou bagunçado sem que você percebesse que eu fiquei horas arrumando ele do jeito que você gosta. Eu não consigo ver brilho nos seus olhos enquanto você me olha e eu não consigo perceber nas suas atitudes que eu sou aquela que te faz perder o ar só de lembrar. Eu não sinto que eu sou a garota a qual você sente orgulho em ter, e, consequentemente eu não me sinto especial ao ser sua. 
Horas depois o meu aparelho vibra e é você com mais uma história. Tantos minutos mais tarde você manda outra mensagem indignado por eu não te responder, mas você não se preocupa realmente em procurar saber o porquê eu não o fiz. Dessa vez, exausta, eu decido ir dormir e te deixar pra lá. Eu não acho que você percebeu, mas eu também já não te pergunto mais sobre o seu dia. Eu não fico mais no seu pé, preocupada se você se alimentou direito, ou se dormiu bem.  Eu estava me afastando conforme eu te sentia distante. 
Você me abraça em uma tarde de domingo e me faz sentir como se eu pudesse ser realmente feliz caso você não me soltasse nunca mais. Eu posso ver que você gosta do modo como eu te olho, e que você se sente importante ao perceber a importância que eu dou a você. Você se faz de modesto quando eu digo que te acho perfeito, mas deve ser fácil ficar com alguém sem ter que dar ‘‘muito em troca’’. Entretanto, de que adianta me fazer sorrir em um dia ensolarado, se nas noites de chuvas eu estou sempre sozinha? Você me fazia sorrir como ninguém durante um dia, confesso! E durante os outros seis eu lutava para não deixar arrebentar o fino fio que ainda me ligava a você. 
Dessa vez eu fui dormir sem ficar esperando a sua ligação de ‘‘Você sumiu. Chegou bem?’’, ou a sua mensagem de ‘‘Eu te adoro. ’’ Talvez se amanhã você estivesse de bom humor você me mandasse algo fofo. Talvez... Quando eu já tiver me acostumado a ir dormir mais uma vez sem os seus cuidados. 
‘‘Dar valor depois que perde’’ é tão clichê! E é por isso que eu faço questão de não fazer parte desse número de pessoas que só dá valor depois que perde. Mas, aparentemente, você não se importa em fazer parte das estatísticas. 
Enquanto você dorme calmamente com o seu ego amaciado pelos meus excessos, eu sinto que estou reconstruindo todos os meus muros que eu derrubei por você.


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